Para começo de conversa…

Maria José Araújo Guerra

Talvez esse texto possa parecer um roteiro de leitura para o conto “Alma”, de Itamar Vieira Júnior, que integra o livro Doramar ou a odisseia: histórias. Deseja-se que seja, em outra direção, uma sugestão de como acessar o conto, até porque não há roteiro, manual de leitura ou método interpretativo que deem conta de toda complexidade de um texto, em especial, o literário. Cada leitor mobiliza sua própria experiência de leituras e o conhecimento de seu entorno para ampliar, recriar ou até mesmo desconstruir os textos que lhe chegam às mãos. E, justamente por ser um processo marcado por esse caráter subjetivo, a leitura é sempre dinâmica, em cada nova entrada pela densidade do texto. Trata-se, na verdade, de um jogo em que autor, texto e leitor estão intimamente ligados em uma relação sempre processual. Aqui vai, assim, uma das possibilidades…

O encaminhamento de leitura proposto vale-se das lentes teóricas das teorias da enunciação[1] [2], porque elas permitem enxergar o texto como interseções de cenas discursivas, em que falam sujeitos, em determinado tempo e espaço, sempre construídos. Dessa perspectiva, não se concebe um ser humano sozinho no mundo, e é sempre a linguagem que o define. Além disso, a linguagem deve ser entendida como interação verbal, e a relação intersubjetiva se estabelece em cenas enunciativas irrepetíveis, em que um “eu” toma a palavra e instaura imediatamente um “tu” (os sujeitos enunciadores) sobre um ele (o referente). Essas categorias (eu- tu- referente/tema- tempo e espaço) só podem ser identificadas na instância do discurso que as contém. Existe uma cena básica que se repete recorrentemente, mas sempre em configurações novas. A ideia, reafirmando, é a do movimento, da dinamicidade. E é importante considerar a leitura como o acompanhamento de um processo; não se trata de identificar elementos como se fossem fixos, mas de observar como se estruturam, a cada momento, nas posições de enunciação. Eis, portanto, o que importa investigar: quem fala, a quem se dirige, sobre o que se fala e como se estabelecem as relações no tempo e no espaço aí construídos. Ao ter esse movimento relacional em mente, o leitor partilha uma rede de significações, que pode ser marcada por tensões e conflitos sociais, que atravessam os sujeitos envolvidos, sejam os empíricos ou os encenados.

Há uma questão bastante importante, a partir das considerações até aqui: essa espécie de “objeto construído”, que é a obra literária, universo movente, é sempre mediadora e mediada. Para que os elementos da obra sejam investigados, especialmente por alunos dos anos finais do ensino fundamental, defende-se que o ato de ler seja intersubjetivo, uma travessia/leitura compartilhada, em que se constroem camadas interpretativas em conjunto.

O livro de Itamar Vieira Júnior na cena enunciativa contemporânea

Doramar ou a odisseia: histórias foi publicado em 2021, após o sucesso de Torto arado, que se tornou um fenômeno de público e de crítica, com vendas massivas e o consequente reconhecimento nacional e internacional. O livro de contos parece confirmar o projeto literário maior de Itamar Vieira Júnior, qual seja o de partir da escuta de vozes silenciadas historicamente e reinscrevê-las, esteticamente, como sujeitos da narrativa e da memória.

O autor, nesse sentido, atua não apenas como escritor, mas como sujeito enunciador posicionado, que transforma vivência, pesquisa e pertencimento em matéria estética e política. Longe de colar a figura do autor à obra, é possível e enriquecedor reconhecer os modos como certos atravessamentos de vida se dão na matéria artística, conferindo-lhe densidade histórica, simbólica e afetiva. Afrodescendente, nordestino, licenciado e mestre em Geografia, doutor em Estudos Étnicos pela UFBA e servidor do Incra, Itamar Vieira Júnior traz consigo marcas de engajamento com os territórios, com a ancestralidade afro-brasileira e com as lutas sociais por terra e memória. A trajetória do cidadão alia-se ao sucesso do escritor para encontrar um público envolto em um movimento de valorização da temática da negritude. E é nesse contexto que o autor enfeixa um conjunto de doze histórias a um só tempo atuais e calcadas na multiplicidade de culturas que formam o país, ajudando o leitor a refletir como o legado colonial e escravagista impacta a história da sociedade brasileira.

Alma

Entre os doze contos que compõem o livro, destaca-se “Alma”. O texto encena o discurso de uma mulher escravizada que narra, em primeira pessoa, sua busca pela liberdade. É por meio da voz dessa personagem que o leitor acompanha sua travessia. Suas memórias unem presente e passado, ultrapassando as barreiras do tempo. É dessa forma que os ancestrais de Alma passam a habitar a escrita. Por meio da memória dessa mulher que preserva histórias vividas e ouvidas, o leitor acessa uma linhagem de antepassados marcada pelo sofrimento e pela morte e, junto a essa linhagem, as heranças da escravidão no Brasil.

Em linhas gerais, a narradora é propriedade de uma família que, após perder parte de sua riqueza, se transfere para um sobrado, levando consigo apenas mais dois escravizados além de Alma: Luzia e Inácio. Os poucos bens móveis são alocados em uma embarcação cuja inspeção foi deixada sob os cuidados de Inácio. Durante o percurso, o barco começa a se encher de água em virtude de um buraco no assoalho, o que resulta na perda de parte da carga. Em um ataque de fúria, o senhor agride violentamente Inácio e o obriga a deitar-se de bruços sobre o buraco, na tentativa de conter o vazamento. Após a morte brutal do escravo, as mulheres veem as tarefas se tornarem mais pesadas e opressivas, acompanhadas de castigos e abusos constantes. A conquista da carta de alforria por Luzia, com o apoio das Irmandades Negras da cidade, intensifica mais a sobrecarga de Alma, que passa a ser alvo de um controle mais rígido e de exigências ainda mais cruéis. Diante do quadro insustentável, a escrava toma uma decisão radical: envenena os senhores e foge, rompendo o ciclo de opressão e abrindo espaço para reescrever o próprio destino.

Mais importante que a paráfrase, em que se apreende o tema, é o modo como a trama é tecida. Nunca é demais lembrar que Literatura é fabulação que se dá na forma escrita. Em outras palavras, é preciso mobilizar a atenção do aluno para a forma como o texto é dito, e não apenas para o que é dito. Nesse sentido, é bom estar atento aos estranhamentos, às reiterações linguísticas, aos paradoxos.

Embora seja o conto mais extenso do livro, “Alma” é formado por cinco longos parágrafos, iniciados por uma letra maiúscula e finalizados por um ponto final. Essa peculiar forma estética acaba por sugerir um fluxo contínuo, sem pausas frequentes, que espelha o percurso da personagem. O aspecto formal não é gratuito, pois liga-se à condição da narradora: mulher escravizada, caminhando sem cessar e sem olhar para trás, após assassinar seus senhores. Isso significa que a forma do texto se liga ao cansaço, à urgência e à fuga da personagem. Corrobora esse aspecto o uso recorrente dos verbos “caminhar” e “andar”, bem como do substantivo “caminho”, na voz da mulher que se enuncia.

Outra reiteração bastante importante diz respeito ao uso de artigos indefinidos, indiciando a indeterminação de tempo e espaço, assim como de sujeito. Os exemplos são muitos, como em “[…] eu, uma mulher que caminha, e por um tempo só caminho, sou uma mulher que caminha sempre em frente e não volta para o que deixou lá longe, agora muito atrás de mim, caminho assim, esperando encontrar o acalanto de um lugar onde exista a liberdade…” (p. 35). A indeterminação inscrita na linguagem, afastando a perspectiva individualizante, mostra que o texto não se limita à trajetória de uma personagem, de maneira a evidenciar a miséria social e humana que atravessa não apenas a mulher negra delineada no conto, mas tantas outras vidas oprimidas ao longo da história.

Aliando-se a isso, vale a pena refletir sobre a falta inicial de nome da protagonista. O nome é, na vida social, o elemento identificador, aquele que dá contornos ao ser na massa anônima. Não o receber é uma marca profunda de apagamento simbólico. A negação inicial de nomeação está diretamente ligada à sua condição social e afetiva. Separada da mãe, sem saber quem é o pai, o que marca sua bastardia, ela é lançada ao mundo sem legitimação. A única ligação com a ancestralidade se dá por meio da avó que, da mesma maneira, não é nomeada. Sem vínculo familiar nomeável, a personagem não tem lugar na ordem simbólica que estrutura as relações sociais. O leitor se depara, assim, com o apagamento geracional da protagonista que metaforiza a exclusão da mulher pobre, negra, escrava.

É nesse cenário que surge a figura da senhora branca, que exerce poder não apenas material. Ao nomear a escrava como Alma, ela inscreve a personagem na linguagem, mas imprime sobre ela a visão de seu lugar no mundo: a de quem detém o direito de nomear o outro. O gesto, aparentemente generoso, quase humanizador, revela-se profundamente autoritário, à luz das relações de poder que atravessam o texto. Afinal, é a inserção de um sujeito por outro que fala em seu lugar, que decide quem ele é, por que será lembrado. O nome que a personagem recebe não vem do afeto ou de sua ancestralidade, mas é fruto da servidão.

Em contrapartida, é significativo observar que, ao longo do conto, os senhores não são nomeados; o que se sobressai é sua função como donos de terra. Já os escravizados — Alma, Luzia, Inácio — são, paradoxalmente, inscritos e lembrados. Trata-se de um jogo de forças entre presença e ausência, entre voz e silenciamento, que indicia a voz autoral. Na releitura da história oficial, observa-se uma inversão desse jogo, já que aos escravizados é conferida uma identidade.

Vislumbra-se o lugar da margem, o que pode ser conferido na própria trajetória da personagem: “nunca andava na estrada, andava pela beirada dos matos […], queria chegar a algum lugar, fui andando, encontrando o perigo, aprendendo a me esconder como as raposas, como os tatus, como as caititus que eu temia que me partissem ao meio, as serpentes infestando o chão por onde eu passava, fui aprendendo com eles a me esgueirar pela mata, pelos montes, fui então aprendendo a ser bicho selvagem para viver.” (p. 31 ) Interessante pensar que a estrada central, espaço do senhor, não pertence à Alma. Seu caminho é o das bordas, da fuga, da astúcia, do silêncio e da resistência. É dessa margem, geográfica e simbólica, que Alma se faz ouvir.

E não só: incapaz de se conformar ao espaço social que lhe é reservado, Alma o transgride, agredindo os senhores que lhe ditam regras, que a veem como bicho. Ao cometer o duplo assassinato, ela não apenas rompe com a ordem doméstica, mas com a lógica de subserviência que organizava seu mundo. Em  um ato de apropriação simbólica do lugar da Sinhá e da feminilidade que lhe era negada, a escrava subverte ao vestir o seu vestido, ao invés de engomar as roupas; subverte ao se lavar, ao se perfumar, ao pentear os cabelos em lugar de servir à dona; subverte ao quebrar os costumes e nutrir-se de dois litros de leite, em lugar de amamentar os muitos filhos brancos da ordem senhorial.

O desmanchar do tecido no corpo de Alma

No trânsito da personagem Alma pelos tempos e espaços da narrativa, vai-se desmanchando a imagem passiva e subalternizada do colonizado, tal qual vai-se desmanchando o vestido de que se apossou. A escrita de Vieira Junior, por meio das estratégias adotadas, opera um desmanche de passagens da história do país, aí inserindo outros pontos de vista. Na narrativa contada por Alma, além da sua voz, ouvem-se vozes de seus antepassados. Em sua errância, há entrelaçamentos de muitas cenas enunciativas engendradas pelas lembranças: os ensinamentos e desabafos da avó, o sofrimento da mãe impedida de estar com a filha, a repetição do destino materno com a retirada de seus bebês, a morte de Inácio e a negação de uma constituição familiar, as reclamações das mulheres brancas quanto aos serviços prestados, as humilhações e os castigos sofridos desde a mais tenra idade.

Por outro lado, ao encontrar o velho homem, lavar-se e vestir uma outra roupa, prenuncia-se a fundação de uma nova terra, que não se dá sem dor: os pés rachados, a pele ferida e a terra sulcada ainda deixam transparecer as cicatrizes do cativeiro. Os atos de acolher muitos homens e parir muitos filhos levam ao repovoamento de uma terra em constante refundação.

 

A partir desse enquadramento mais geral, para provocar a leitura crítica dos alunos, o professor pode lançar algumas questões:

  1. Como a dedicatória (“Às mulheres, maternas, ancestrais, que se fizeram movimento em meu caminho”) e a epígrafe (versos do poeta Adonis: “Nasci numa aldeia/ pequena, reclusa como o útero/ e ainda não saí dela”) se relaciona com os contos aqui trabalhados?
  2. Especificamente em relação ao quarto conto do livro, “Alma”, quem é a voz que narra? O que se sabe sobre esse narrador? Que lugar ele ocupa na realidade construída no texto?
  3. Direcionando o olhar para a forma do texto, você reparou que o conto, o mais extenso do livro, é formado por poucos e longos parágrafos? Por que o autor optou por escrever dessa forma inusitada? O que essa maneira de escrita tem a ver com a caminhada/fuga da personagem?
  4. Nessa mesma direção, como se podem interpretar as várias intercorrências dos verbos “caminhar” e “andar” e do substantivo “caminho”, na voz da mulher escrava que se enuncia?  
  5. No primeiro parágrafo do texto, encontra-se a seguinte passagem: “eu, uma mulher que caminha, e por um tempo só caminho, sou uma mulher que caminha sempre em frente e não volta para o que deixou lá longe, agora muito atrás de mim, caminho assim, esperando encontrar o acalanto de um lugar onde existia a liberdade…”. Que significações podem advir do uso reiterado de artigos indefinidos no texto?
    A que tipo de concepção de tempo leva a frase “Caminhei por muitas luas”, que inicia o primeiro e o segundo parágrafos?
  6. Que elementos do texto você indicaria para comprovar a falta de identidade inicial da narradora?
  7. Escreva, em poucas palavras, a relação entre alma e sua senhora.
  8. Em determinado momento do conto, Alma não se conforma mais com as regras que lhe são impostas. Retorne ao texto e identifique dois momentos em que ela desafia as normas e ultrapassa os limites impostos ao seu lugar dentro da sociedade.
  9. Como se configura o lugar construído por Alma depois de livrar-se da servidão?

 

Após o debate do livro, seria interessante discutir o lugar da obra de Itamar Vieira Junior com a literatura brasileira, estabelecendo possíveis diálogos com autores do passado e do presente.

De que forma a obra de Itamar Vieira Júnior se relaciona? O que esse objeto artístico, construído por um autor brasileiro de nosso tempo, pode nos fazer pensar sobre o Brasil atual?

[1] BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral II . Trad. Maria da Glória Novak e Maria Luísa Neri. Campinas, SP: Pontes, 2006.

[2] PAULINO, Graça; WALTY, Ivete. Leitura literária: enunciação e encenação. In: MARI, Hugo; WALTY, Ivete; VERSIANI, Zélia (Orgs.). Ensaios sobre leitura . 1. ed. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2005, v. 1, p. 138-154.

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