SUBJETIVIDADE E MELANCOLIA: ANÁLISE DO CONTO “MEU MAR (FÉ)” de ITAMAR VIEIRA JUNIOR

Cristina Maria Ribeiro de Oliveira

Entre os contos do livro Doramar ou a odisséia selecionados pelo Nelice para análise, escolhi o conto de Itamar Vieira Junior “Meu Mar (Fé)”, por ele me trazer várias questões sobre a subjetividade, compreendida como espaço de formação do sujeito, em especial aquelas relacionadas com contextos de imigração.

Narrado em primeira pessoa, o conto aborda a travessia de uma mulher e de seu companheiro, inominados, de Baraka, na periferia de Dakar, em Senegal, rumo ao Brasil, em um navio com mais quatro homens. Escondidos em um contêiner, são descobertos, violentados e lançados ao mar. Três deles, entre eles a protagonista, são salvos por uma pequena embarcação, enquanto outros morrem no mar. Seu companheiro desaparece nas águas. Os sobreviventes aportam no porto da Bahia. Algum tempo depois, a protagonista percebe que se encontra grávida e fica em dúvida se o filho seria fruto da sua relação amorosa ou da violência sexual a que é submetida no navio. O conto encena o jogo de tensão entre a vida e a morte, evidenciando o sofrimento humano, com ausências, faltas e melancolia.

Ao longo da narrativa, elegendo seu parceiro agora já morto como interlocutor, a protagonista remete à sua travessia entre Baraka e o Brasil, como imigrante. Na passagem transcrita a seguir, ao lado da predominância de signos que remetem à dor, nota-se uma imagem de sustentação representada pela mão do companheiro:

Você segurou minha mão diversas vezes com muita força. Era uma travessia dolorosa, carregada de angústias e temores. Deixávamos nosso país para trás sem a esperança de voltar em breve. Deixávamos tudo com melancolia, sem sorrisos… (Vieira, 2022, p. 100).

Nessa cena a protagonista enuncia a sua condição de estrangeira em terras desconhecidas, sem expectativa de retorno. O tom melancólico é ressaltado em expressões como “o inferno da travessia” ou “travessia dolorosa”, sempre permeado pela esperança do encontro com o amado, como alento, como maneira de expressar o desejo a ser realizado.

Todos os dias eu volto à praia para tentar te encontrar…Olho para cada homem que aparece no cais… Eu te procuro em cada rosto, em cada onda que chega aos meus pés. Tenho esperança que você voltará, chegará a qualquer momento, ainda há salvação para nosso futuro… (VIEIRA: 99, 2022).

Observando a interlocução entre o eu e o tu na passagem anterior, vale lembrar que, para Benveniste, o homem é um sujeito que fala para o outro, em um determinado contexto, e que recebe uma resposta, mesmo que, como nesse caso, seja o silêncio. Como já mencionado anteriormente, ao falar para o amado ausente, a mulher se constrói como enunciadora marcada pela melancolia, fruto das perdas como a mudança de país, da ausência dos amigos e da dificuldade de se adaptar a uma nova cultura, em um espaço no qual não tem domínio da língua, nem mesmo compreende as palavras.

A relação entre o EU e o TU está associada a um jogo paradoxal envolvendo os verbos “perder” e “encontrar”, reiterando a tensão em construções como: costumava então me perderpara que você não demorasse a me encontrar. É nessa contraposição entre o perder e o encontrar o outro, o objeto amado, que a personagem constrói e reconstrói seu eu.

A personagem principal teve várias perdas na sua travessia que contribuíram para a transformação de sua subjetividade: a terra natal, o companheiro amado, o seu corpo violentado pelo estupro. Nessa trajetória, o mar faz-se uma metáfora central da condição da mulher separada do objeto de desejo. No início do texto, o mar era designado pelo termo feminino (la mer, em francês), mas ao longo do conto, ao ser personificado, torna-se masculino (o mar). Isso denota que a sua melancolia vai se perdendo quando se torna mãe e necessita de um pai (o mar) para o seu filho, como uma metáfora do corpo do seu companheiro perdido.

É nesse jogo entre perdas e encontros que se forjam as cenas mais significativas; o espaço do mar, por exemplo, torna-se, ao mesmo tempo, elemento de separação e de união dos sujeitos. Estando entre Baraka e o Brasil, cada local com uma cultura, uma língua, o mar separa os amores, mas se torna o pai do filho da protagonista, tornando-se espaço de união. Trata-se de uma tensão no jogo entre masculino e feminino, vida e morte, união e separação, sofrimento e esperança, no espaço e tempo das memórias da narradora. Segundo Maria Zilda Ferreira Cury, o espaço das memórias é constituído pela procura de um eu singular, ou seja, de uma identidade que se constrói diante de um outro, de uma alteridade.

Nessa relação entre o Eu e o Outro, entre a identidade e a alteridade, observam-se cenas que enunciam o sofrimento da personagem principal, decorrente da violência infligida a ela, durante sua travessia do mar:

Todas as noites tenho pesadelos com o mar. O sonho e a angústia trazem os homens que entraram em mim. Mas você não aparece em minha noite: apenas os homens, a escuridão, a maresia, a violência, o silêncio (p. 108).

Na procura pelo seu eu, a protagonista se encontra com a personagem Dominique, que inclusive a nomeia:

Dominique e eu somos feitas da mesma matéria. Às vezes, em sua inspiração, disciplinada, ela me chama de Foi. A palavra mais bela pela qual alguém já me chamou, mesmo numa língua que nos colonizou, mas, ao mesmo tempo, nos uniu, agora eu descobria, de um lado ao outro do oceano (p. 108).

A partir dessa relação afetiva entre as duas mulheres, a personagem principal é nominada pela imigrante Dominique como Foi (Fé). Para sobreviver aos momentos melancólicos das perdas na chegada ao Brasil, Foi se encanta com a beleza da união que se estabelece afetivamente entre elas. Esse encontro proporciona à narradora um apoio no enfrentamento da realidade do país desconhecido.

É nesse jogo entre vida e morte que Foi desiste de viver, como se vê na cena em que deseja entrar no mar para se encontrar com o amado companheiro. Isso evidencia a autoagressão que perpassa a vida da protagonista e culmina no seu desejo extremo de morrer:

Afundo lentamente, a barriga é um peso, uma respiração. Há mais luz para que eu veja o que está à minha volta, tudo que eu quero é te encontrar. Desço cada vez mais, você não aparece, desço, desço, até que meu corpo, sozinho – queria permanecer descendo –, toma um impulso para subir, para respirar de um só fôlego tudo que não havia respirado desde que cheguei aqui, desde que nossos sonhos ruíram nesse lugar de mentiras (p. 111).

Entretanto, o respirar sinaliza a pulsão de vida, a resistência de Foi e seu pertencimento à terra sonhada para realizar o desejo de ser mãe e criar seu filho:

Nosso filho nasceu e eu vejo nos olhos dele o reflexo dos seus. Passo alguns dias sem ir à praia, e, num dia de sol, sigo ao seu encontro. Vou apresentar nosso filho, mar, porque ele é seu filho também. (p. 112).

Há um movimento pendular entre mar e terra; ora a protagonista se identifica com o mar, buscando a morte, ora ela retorna para a terra, para criar seu rebento e, por fim, ela volta ao mar para lhe apresentar seu filho. Como demonstrado pelo uso ambíguo do pronome “seu”, o mar, personificado, que antes era lugar de morte, torna-se origem da vida.

Este texto buscou retomar as questões da subjetividade que nortearam minhas reflexões, quais sejam: como a subjetividade do sujeito se transformou no encontro com os outros nas cenas enunciativas? Como esse sujeito, que se encontrava em melancolia ao sair de sua terra natal, elaborou seu sofrimento? É importante pensar que os elementos textuais explorados me permitiram construir a leitura proposta.

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