O conto “Alma”, da coletânea Doramar ou a odisseia: Histórias, de Itamar Vieira Junior, narra a trajetória de uma mulher escravizada que, ao fugir do litoral ao sertão baiano, reinventa sua existência e funda uma nova comunidade. Mais do que relato de fuga, trata-se de uma narrativa sobre linguagem, memória e constituição do sujeito.
A questão central que orienta esta leitura é: como a cena enunciativa em “Alma” constitui uma subjetividade negra insurgente diante da lógica colonial de desumanização? Partimos da hipótese de que, no conto, narrar não é apenas lembrar — é existir politicamente. Para compreender essa dimensão, é fundamental explicitar que entendemos por cena enunciativa o espaço em que o discurso acontece: quem fala, a quem se fala, de onde se fala e em que tempo. Não se trata apenas de analisar personagens ou enredo, mas de observar como a linguagem, ao se realizar, produz sujeito e sentido, transformando a narrativa em ato de posicionamento histórico.
Conforme afirma Émile Benveniste, o sujeito nasce no ato de dizer “eu”. O “eu” não existe antes da linguagem; ele se constitui na enunciação. Sempre que alguém fala, instaura um “eu” e um “tu”, criando uma relação intersubjetiva.
Em “Alma”, essa constituição se explicita logo no primeiro parágrafo da narrativa, como se vê especificamente no trecho: “Eu, uma mulher que nasceu acorrentada aos desejos dos meus senhores, eu que não tinha nome porque não era nada […]” (p. 35) sentença que concentra, em poucos termos, toda a potência da cena enunciativa do conto.
Comecemos com o pronome “Eu”, deslocado para a abertura da frase e separado por vírgula, instaura de modo enfático a posição do sujeito. À luz de Émile Benveniste, o “eu” não é uma palavra qualquer; é a marca linguística que só existe no ato de dizer. Ao pronunciá-lo, a narradora não apenas se identifica; ela se constitui como sujeito. O sistema escravocrata lhe negara nome e identidade — “não era nada” —, mas a encenação, construída pelo autor, devolve-lhe existência simbólica.
Reforçando o jogo entre primeira e terceira pessoa, a sequência explicativa que completa a oração— “uma mulher que nasceu acorrentada aos desejos dos meus senhores” — revela a tensão central da cena na relação que envolve objeto e sujeito. O verbo “nasceu” associa a condição de cativeiro à origem, como se a escravidão fosse destino naturalizado. A personagem delineada narrando sua origem, no entanto, desloca-a do plano da fatalidade para o plano da consciência histórica. O que era imposto como natureza torna-se memória elaborada.
Há ainda um elemento decisivo: a expressão “meus senhores”. O possessivo “meus” carrega ambiguidade. Ele indica relação de dominação, mas, no interior da enunciação, essa posse é reconfigurada. Ao nomeá-los, a narradora delimita o lugar do opressor. A linguagem, que antes servira para classificá-la como propriedade, agora é instrumento de classificação do poder que a subjugava.
Sob a perspectiva de Mikhail Bakhtin, essa enunciação também é dialógica. Ao afirmar-se como “eu”, a narradora responde a um discurso histórico que a definiu como objeto, corpo, mercadoria. Sua fala é, portanto, réplica a séculos de silenciamento. Ela antecipa ainda a escuta do leitor, convocado a reconhecer a violência estrutural inscrita na frase.
A cena enunciativa organiza-se, assim, em três movimentos simultâneos: a autoconstituição, na qual o “eu” emerge como instância de fala; a memorialização crítica cuja origem marcada pela violência é reinterpretada; uma insurgência simbólica na qual a linguagem deixa de reproduzir a opressão e passa a denunciá-la.
Desse modo, a frase, até então analisada, não apenas descreve uma condição; ela encena a passagem da reificação à subjetivação. O sujeito que “nasceu acorrentado” já não está preso no interior da narrativa: ao dizer-se, caminha para fora dela. A cena enunciativa transforma a memória da escravidão em gesto político de existência.
A repetição do pronome não é simples recurso estilístico. É gesto performativo. A personagem, historicamente reduzida à condição de coisa, afirma-se como sujeito no próprio ato de narrar. O sistema escravocrata lhe negara nome e identidade; a enunciação restitui-lhe existência simbólica.
A cena discursiva convoca ainda um interlocutor implícito: o leitor. A memória narrada interpela quem lê, transformando o texto em espaço de escuta ética. Essa interpelação não é neutra; ela exige que o leitor reconheça a violência histórica que estrutura a fala da narradora.
É nesse ponto que a condição inicial de “Alma” dialoga de modo contundente com o pensamento de Frantz Fanon, teórico martinicano considerado como nome inaugural do pensamento anticolonial. Em Pele negra, máscaras brancas, Fanon analisa como o sujeito negro, sob o regime colonial, é reduzido à dimensão corporal e fixado pelo olhar branco como objeto, não como consciência. Ao convocar o leitor a escutar suas memórias, a narradora, enquanto uma estratégia autoral, rompe justamente com a objetificação explícita, por exemplo, na animalização: “ […] como uma cadela, meus filhos arrancados como uma ninhada de cães […]” (p. 36) Desloca-se, então, do lugar de corpo observado para o de sujeito que observa, interpreta e denuncia.
Como se viu até então, a perda do nome e a apropriação do corpo feminino como força de trabalho e reprodução revelam a violência ontológica da escravidão. No entanto, a narrativa não se limita à exposição do trauma. Ela dramatiza um processo de desalienação.
Quando Alma afirma possuir “uma alma que caminha sempre para a frente”, instaura-se um rompimento simbólico. A fuga pelo sertão é deslocamento físico, mas também passagem da condição de objeto à afirmação de sujeito histórico. Esse movimento não se realiza apenas no plano da ação, mas sobretudo no plano da linguagem encenada, pois é ao narrar a própria travessia que a personagem transforma a experiência vivida em consciência.
Nesse sentido, a memória, como lembra Paul Ricoeur, organiza-se narrativamente: recordar é reinterpretar. Em “Alma”, o passado não aparece como destino fechado, mas como trajetória ressignificada. A caminhada para a frente é também reescrita do que ficou para trás; ao contar sua história, a narradora converte a fuga em projeto e a dor em fundamento de identidade.
Ao afirmar “deixei o mar e a água, deixei plantações de cana e casa branca”, a narradora transforma o deslocamento forçado em sequência significativa. O verbo “deixar” não expressa apenas perda; sugere decisão, ruptura, movimento. A enumeração marca linguisticamente a passagem de um espaço de opressão para outro horizonte possível, reorganizando o passado sob a lógica da escolha e não da mera imposição.
É justamente nessa passagem que o silêncio adquire densidade política. A resistência não se dá por discursos grandiosos, mas pela persistência da caminhada. O corpo vulnerável torna-se espaço de ação — perspectiva que dialoga com Judith Butler ao pensar a performatividade e a política da vulnerabilidade. Aqui, a cena enunciativa ultrapassa a dimensão da fala verbal: o corpo que caminha também enuncia, convertendo movimento em linguagem e existência em gesto político.
Segundo Mikhail Bakhtin, todo discurso é atravessado por múltiplas vozes. O “eu” de Alma não é apenas individual; carrega a experiência histórica de inúmeras mulheres negras submetidas à escravidão. A cadência narrativa aproxima-se da tradição oral, evocando aquilo que Walter Benjamin identifica como experiência compartilhada. A repetição e o ritmo conferem ao relato uma dimensão coletiva.
A enumeração dos espaços abandonados — mar, canavial, casa-grande — ultrapassa a geografia. Torna-se signo histórico. O discurso dialoga com o passado, mas projeta outro horizonte possível.
A criação de uma comunidade no sertão marca a passagem da fuga à fundação. Se antes o movimento era sobrevivência, agora se converte em projeto. À luz de Silviano Santiago, o sertão pode ser lido como entre-lugar: espaço marginal onde novas identidades emergem fora do centro colonial. Nesse deslocamento, a margem deixa de ser ausência e transforma-se em possibilidade.
Esse território aproxima-se também da noção de “lugar de memória”, formulada por Pierre Nora. Ali, o trauma não é apagado nem silenciado; torna-se fundamento de pertencimento. A comunidade nasce da memória elaborada, não da amnésia histórica.
Nesse contexto, a maternidade — antes atravessada pela violência (“pari com dor esse filho que tiraram dos meus braços”) — adquire outro sentido. O corpo feminino, outrora reduzido à função produtiva e reprodutiva, deixa de ser instrumento de exploração e torna-se matriz de continuidade autônoma. Assim, a fundação da comunidade configura-se como gesto simbólico de reexistência: não apenas escapar, mas criar.
É justamente nessa passagem da fuga à criação que a cena enunciativa revela sua dimensão insurgente. Ao articular linguagem, memória e corpo, Alma constrói um espaço discursivo em que o sujeito negro emerge como consciência histórica. A narrativa desloca-se da reificação à autoafirmação.
Em termos teóricos, essa dinâmica pode ser sintetizada de modo articulado: com Émile Benveniste, compreendemos que o “eu” nasce no ato de dizer; com Mikhail Bakhtin, reconhecemos que esse “eu” dialoga com vozes sociais; com Frantz Fanon, entendemos a violência da desumanização colonial que tenta reduzir o sujeito a corpo; e com Paul Ricoeur, percebemos que a memória, ao ser narrada, torna-se elaboração e não repetição.
No conto, a enunciação ultrapassa a representação do trauma porque se constitui como ato político. Ao narrar, Alma rompe com a lógica que a reduzia à condição de coisa e projeta uma coletividade possível. A literatura, nesse sentido, transforma-se em espaço de elaboração crítica da memória brasileira. A cena enunciativa não é apenas estrutura textual; é lugar de disputa simbólica.
Entre lembrança e insurgência, Alma não revisita o passado para fixá-lo, mas para reinscrevê-lo sob a perspectiva de quem foi silenciado. Ao convocar o leitor à escuta, instaura uma responsabilidade ética diante da história. Em verbo negro, a linguagem deixa de apenas contar a vida: passa a fundá-la.
