Entrando na floresta: as cercas e caminhos possíveis da leitura literária na cena escolar

Jonatas Aparecido Guimarães
No início da década de 1990, Umberto Eco pronunciou as conferências que posteriormente seriam publicadas no volume Seis passeios pelos bosques da ficção, dedicando a primeira delas, intitulada “Entrando no bosque”, a refletir sobre figura do leitor. Coincidentemente, o primeiro conto do livro Doramar ou a Odisseia: histórias, de Itamar Vieira Junior, recebe o título de “A floresta do adeus”, explorando a imagem de caminhos e de cercas, que delimitam os trânsitos e limites possíveis dos personagens Luís, Prima Rosa e sua comunidade. Nessa analogia, por que não perguntar: seriam essas trilhas e cercas caminhos e limites para o próprio leitor de ficção? Considerando que o livro de Itamar Vieira Junior integra os volumes selecionados para o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD Literário) de 2024, parece-nos provocativo partir dessa analogia para explorar, a partir da análise de seus distintos contos, caminhos possíveis para a formação do leitor no contexto da educação básica.
É nessa direção que as publicações seguintes apresentam resultados das discussões promovidas pelo Nelice no segundo semestre de 2025, acerca das possíveis abordagens dos contos presentes na obra em pauta. Na diversidade de resultados necessários aos debates de um grupo de pesquisa, os ensaios propõem leituras, propostas de atividades, relações entre reflexões teóricas e o contexto do ensino de literatura, sempre tendo em vista a cena enunciativa escolar, sob o recorte mais específico do PNLD Literário. 
Personagens da floresta
Inicio estas reflexões pela citação de algumas das palavras finais da Carta ao professor, produzida por Lara Santos Rocha, no “Material de apoio ao professor”, relativo ao livro Doramar ou a Odisseia: histórias, de Itamar Vieira Junior destinados aos anos finais do Ensino Fundamental. Vamos a ela:
“Nenhuma história aqui se encerrará nela mesma, nenhum personagem desaparecerá quando o livro terminar.” (p. 4)
Essa passagem me chama especial atenção por tocar em um conceito a cujos estudos tenho me dedicado: o personagem. Afinal, essa frase sugere uma imagem viva do personagem, que poderia ser relido, ressignificado e reconstruído dinamicamente. 
É curioso notar que essa construção de Lara Santos Rocha faz lembrar a noção de figuração, empregada por Carlos Reis no volume Pessoas de livro, quando valoriza mais o personagem como um “fazer”, do que como um produto, de forma que essas figuras ficcionais estariam em constante processo de recriação que ultrapassa a obra na qual teriam sido originalmente concebidas.
Consequentemente, a imagem presente no “Material de apoio destinado ao professor” de um personagem que transcenderia os limites do livro seria promissora no sentido de estimular uma prática de leitura que evitasse modelos estanques, classificatórios e reducionistas não raro observáveis em contextos escolares.
Trata-se, é preciso destacar, de um material produzido de maneira competente pela autora, sobretudo se se tem em mente as exigências do edital do PNLD, bem como o respeito às habilidades e competências estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular.
Com o intuito de aprofundar as reflexões sobre as possíveis abordagens do livro Doramar ou a Odisseia: histórias para o contexto da formação de leitores literários na educação básica, vale fazer um contraponto.
Dando continuidade ao material, a autora propõe, como atividade didática, a criação de perfis no Instagram para os personagens, sendo que, antes, ela sugere:
Pode ser interessante que os grupos, antes de criarem o perfil, elaborem uma tabela com as principais características físicas e psicológicas de cada personagem, incluindo também os fatos que marcam sua vida. Vale ressaltar que certos aspectos, principalmente emocionais, nem sempre estão explícitos na história, mas detalhes do enredo, da linguagem e das ações das personagens possibilitam compreender sua personalidade. (p. 20)
Ora, nesse caso não haveria um retorno ao estabelecimento de características fixas, como se estas pudessem ser colhidas e arroladas em uma tabela? Essa perspectiva não se contrapõe à imagem dinâmica e processual sugerida anteriormente? 
Efetivamente, o não estabelecimento de balizas teóricas mais sólidas ocasiona uma flutuação no modo como determinados conceitos são abordados em diferentes passagens do material. 
Notemos, por exemplo, o emprego do termo polifonia na passagem: “Cada trecho da história é narrado por um deles, e essa mistura de vozes, que chamamos de polifonia, nos ajudará a conhecer o ponto de vista de cada personagem.” (p. 18). Embora o conto “A floresta do adeus” seja efetivamente polifônico, o emprego do termo se distancia do modo como proposto por Bakhtin, que sempre leva em conta as posições sociais e ideológicas dos falantes. Em vista disso, um mesmo personagem, ou até uma única frase sua, pode remeter a múltiplas vozes a um só tempo. Se há uma imprecisão no emprego do termo polifonia, é significativo que não conste qualquer obra de Bakhtin ou de algum de seus estudiosos entre as referências bibliográficas, o que sublinha a escassez de orientação teórica. 
Especificamente em relação à conceituação do personagem, a autora menciona a pesquisa de Regina Dalcastagnè
Em pesquisa desenvolvida sobre a produção literária brasileira, Regina Dalcastagnè traçou um perfil do escritor brasileiro médio: homem, branco, heterossexual, de classe média e sudestino. Já 93,9% das personagens são brancas, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). Aos 7,9% de personagens negros, estão atribuídos papéis como bandidos ou contraventores (20,4%), empregados e empregadas domésticos (12,2%) ou escravizados (9,2%). Destes, apenas 5,8% são protagonistas e 2,7%, narradores. (p. 5)
Como se nota, a principal preocupação com essa citação é a de explicitar processos de exclusão na produção literária brasileira. Mas, para além dos dados quantitativos, não se evidencia qual o conceito de personagem com o qual se trabalha, ou como este, enquanto categoria da produção ficcional, poderia estar relacionado à criação ou questionamento dos estereótipos mencionados.
Como consequência, em determinadas passagens, parece haver uma consideração de que certos traços identitários seriam fixos. Vejamos a referência à figura autoral de Itamar Vieira Junior:
“Para Itamar Vieira Junior, envolver a literatura nesse processo é também uma tentativa de resgatar sua própria identidade […]” (p. 7)
Nesse caso, o próprio emprego do vocábulo “resgatar” sugere algo já pronto e acabado, como se essa identidade não fosse produzida por fatores históricos, sociais, econômicos e, logicamente, ficcionais. Ou seja, trata-se de um processo por meio do qual são produzidos personagens, sejam eles históricos ou ficcionais.
Considerando essas reflexões, um dos aspectos que poderíamos somar ao material em análise seria o estabelecimento de balizas teóricas que poderiam orientar a prática de leitura em sala de aula. Por isso mesmo, no sentido de valorizar a imagem construída pela autora, caberia evidenciar a noção de figuração de Carlos Reis, a partir da qual, assim como a pessoa, o personagem não é uma entidade fixa, pronta e acabada, mas se encontra em um processo dinâmico de reconstrução contínua.
Na medida em que o material também evoca a noção de polifonia para se referir aos pontos de vista dos personagens, seria interessante relembrar que, em O autor e a personagem na atividade estética, Bakhtin dá os passos iniciais no desenvolvimento de sua teoria do dialogismo. Se, no Material de apoio ao professor, em alguns momentos as noções de autor e de personagem se confundem, caberia relembrar que esse passo inicial para a elaboração da noção de voz foi construído a partir do confronto entre as posições de autor e de personagem. Em outros termos, foi a partir do confronto das perspectivas de autor e de personagem que Bakhtin propôs seu pensamento ético voltado para as relações com a alteridade, o eu que se constitui a partir do contato com o outro. A ficção narrativa é o espaço onde é possível juntar autor e os personagens e levá-las a chocarem-se entre si. Por isso, os personagens estão em constante reconstrução, confrontando-se os personagens do passado, do presente e do futuro em um processo contínuo de negociação de sentidos, mesmo porque a palavra é sempre habitada pelo outro.
Naturalmente, não seria produtivo levar esses conceitos para serem debatidos em sala de aula, mas toda prática de leitura é pautada por determinadas orientações teóricas e metodológicas. Por isso, é importante ter em mente quais são os pressupostos que balizam o trabalho do professor.
Ora, se consideramos que o personagem é construção que coloca em pauta dimensões da subjetividade, nada mais necessário que estimular os estudantes a analisar os personagens no texto.
Para tanto, seria frutífero analisar como é construída a Prima Rosa, no conto “A Floresta do Adeus”. Vejamos a seguinte passagem, vista a partir do ponto de vista de Luis:
“Prima Rosa, a cigana, cintilante e púrpura, deixa cair como uma pétala um sorriso do rosto. Meu coração guarda o conforto da visita das tias, do tio com seu ar bonachão, mas se deita leitoso no véu do crepúsculo por ver Rosa, a cigana, a prima de amor a acalentar meu corpo em murmúrios, com seus olhos vagarosos a verter luz. Como se fosse água minando da fonte, seus cabelos revoltos domados por um lenço de renda, seu vestido de cambraia revelando os contornos do corpo doce e maduro, os lábios livres de batom, mas cor de carmim como se fossem pintados, deslizando seus passos como se dançasse para os espíritos da terra, a deusa da fertilidade, uma camponesa de mãos lapidadas no trabalho, com sulcos e vincos, lanhos pelos braços e pernas, pelo corpo forjado no solo como o metal se forja num cinzel, a me desfazer em anseios, em conforto, em pecado, em condenação, em absolvição.
O professor pode solicitar aos alunos que discutam entre si, em duplas ou em pequenos grupos, respondendo às seguintes perguntas:
  1. Quais características podem ser relacionadas à Prima Rosa quando a ela são associados termos como “pétala”, “maduro” e doce?
  2. Tendo em mente a primeira questão, quais possíveis relações entre a descrição do corpo de Prima Rosa e os termos “terra”, “deusa da fertilidade”, “camponesa de mãos lapidadas no trabalho”?
  3. Como o nome da personagem se relaciona com essas características?
  4. Lembrando que a narrativa se desenrola no ambiente da “Floresta do Adeus”, como seria possível interpretar a relação entre a Prima Rosa e o espaço onde ela vive?
  5. A partir do que foi discutido, como é possível interpretar o trecho “a prima de amor a acalentar meu corpo em murmúrios” e “a me desfazer em anseios, em conforto, em pecado, em condenação, em absolvição” ?
Após a discussão com a dupla ou com o grupo, é interessante abrir o debate para toda a turma. Trata-se de um momento em que o professor pode mediar a análise, propondo outras questões, aproximando as proposições de distintos estudantes, ou fazendo provocações.
A partir desse momento, seria útil contrapor as perspectivas de Luis, analisada no fragmento anterior, e a seguinte passagem, vista sob a perspectiva da própria Prima Rosa:
“O vento desalinha meu cabelo e eleva as pontas de meu lenço de renda que, por pouco tempo, cobrem meus olhos úmidos de espera, úmidos por Luís, que vive além da floresta do Adeus, do outro lado da cerca, onde existe uma estrada. A rosa túmida de meu corpo, inútil flor sem sua presença, sem ter para quem se inclinar, perfumar, rosa vil que pisa folhas mortas, que se arrasta em sua graça vã, corpo que dança sem música, pão que assa sem brasa, a cigana indomada, ardendo em seu corpo jovem, arrastando-se com as tias de muitas saias e o tio a quem coube ser meu pai. Quero olhar Luís, sentir sua presença, sua afeição pelo campo, pela terra, pelas cores que ornam o mundo, sua sutileza quase animal, seu rosto queimado de lutas […]”
A partir dessa contraposição, torna-se possível acrescentar as questões: 
  1.  Por que o corpo de Prima Rosa é descrito como uma inútil flor sem a presença de Luis?
  2.  Comparando a referência ao “corpo doce e maduro” feita por Luis e o “seu corpo jovem” feita por Prima Rosa, qual sentido pode ser atribuído a esse amadurecimento?
  3.  É utilizado algum elemento da natureza para se referir a Luis? Qual possível sentido essa descrição pode integrar à construção desse personagem?
É importante que a observação desses elementos textuais seja direcionada para uma interpretação mais ampla do conto. A esse respeito, é possível ampliar o modo como a construção desses dois personagens é feita a partir dos membros familiares, analisar a integração dos valores da terra e da fertilidade ao contexto familiar, ou mesmo explorar o ambiente mítico em que se passa a narrativa. Em todo o caso, é preciso que a análise seja construída de forma processual, em diálogo com os estudantes, de maneira a não sugerir uma única interpretação possível

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