Doramar ou a odisseia: histórias, de Itamar Vieira Júnior, uma leitura transversal

Ivete Walty

Propõe-se aqui uma leitura do livro acima mencionado, em especial de três dos seus contos – Alma, Meu mar (Fé) e A floresta do adeus –, levando em conta as análises já feitas por outros integrantes do NELICE de cada um deles. Com objetivo didático, alguns elementos comuns serão tomados transversalmente de modo a atravessarem a obra, como caminhos traçados pelos leitores na busca de construção de sentidos.

A metodologia usada considera sempre as cenas enunciativas que compõem os contos e o próprio livro, articulando seus sujeitos, espaços e tempos: – Quem fala para quem? – Em que espaços e tempos? – Que vozes aí circulam?

Para isso, o passo inicial consiste em fazer um levantamento de elementos dos textos, observando sua recorrência e suas relações com outros. Por isso mesmo, o primeiro elemento escolhido é a imagem do caminho, não por acaso já inscrita no título do livro, sobretudo na palavra Odisseia. Esse único termo diz de outras cenas enunciativas, literárias e históricas. O leitor já conhece certamente o sentido comum dessa palavra, usada normalmente como sinônimo de aventura, e até de muito esforço: “Que odisseia!” Mas, mais do que isso, pode ser levado à aventura específica de Ulisses em sua peregrinação pelos mares, na obra Odisseia, de Homero. História básica da civilização ocidental, conta os caminhos de Ulisses pelos mares na volta para casa depois do enfrentamento da guerra de Troia, enquanto Penélope, sua mulher, o espera, resistindo aos pretendentes a um novo casamento, por meio do ato de tecer um manto durante o dia e desmanchá-lo durante a noite.

Não se vai tratar aqui da análise dessa obra. O que se pretende é apenas mostrar como uma única palavra pode abrir novas cenas enunciativas, novos sujeitos, espaços e tempos. Isso deixa ver como o livro de Itamar Vieira Júnior, autor baiano da atualidade, dialoga com uma obra grega anterior ao tempo de Cristo.

 

Essa ideia de caminho que abre o livro se repete e se ressignifica em vários contos. Mais visivelmente, no conto “Alma”, como bem mostra Maria José Araújo em sua leitura, a grande incidência do verbo caminhar liga a protagonista à ideia de movimento e busca: “e eu, uma mulher que caminha e, por um tempo, só caminho, sou uma mulher que caminha sempre em frente, e não volta para o que deixou lá longe, agora muito atrás de mim, caminho assim   esperando encontrar o acalanto de um lugar onde exista a liberdade (…) ” (p.36). Nessa primeira fala citada, já se percebem algumas características da personagem que fala: mulher, caminhante, em busca de liberdade e que conta sua história.

O leitor acompanha, pois, a trajetória de Alma entre a escravização e a liberdade. Ao mesmo tempo que o ato de caminhar leva ao futuro, volta ao passado e revela a vida de Alma, que, escravizada, luta entre a submissão, a resistência e a revolta. Entre a incidência de termos do campo semântico de caminhar e a ausência de pontuação das frases que acentuam a ideia de movimento contínuo, traçam-se as vivências de Alma, que se constrói como sujeito e passa a povoar o mundo, em ato similar às narrativas bíblicas de criação.

A imagem de caminho, como se vê, abre-se para acolher aquilo que Roberta Alves nomeia como a constituição de uma subjetividade negra insurgente diante da lógica colonial de desumanização. Por isso mesmo, ela continua mostrando que a cena enunciativa se organiza em três movimentos simultâneos: a autoconstituição, na qual o “eu” emerge como instância de fala; a memorialização crítica cuja origem marcada pela violência é reinterpretada; a insurgência simbólica na qual a linguagem deixa de reproduzir a opressão e passa a denunciá-la.

Quando a narradora afirma possuir “uma alma que caminha sempre para a frente”, instaura-se um rompimento simbólico. A fuga pelo sertão é deslocamento físico, mas também passagem da condição de objeto à afirmação de sujeito histórico. Esse movimento não se realiza apenas no plano da ação, mas sobretudo no plano da linguagem encenada, pois é ao narrar a própria travessia que a personagem transforma a experiência vivida em consciência.

Em sua análise, Roberta Alves mostra que é justamente na passagem da fuga à criação que a cena enunciativa revela sua dimensão insurgente. Ao articular linguagem, memória e corpo, Alma constrói um espaço discursivo em que o sujeito negro se constitui textualmente como consciência histórica. A narrativa desloca-se da reificação à autoafirmação.

A ideia de travessia e de movimento volta intensamente no conto “Meu mar (fé)”; agora mais caminho das águas do que da terra. Na vinda de Dakar, na África, para o Brasil, outro personagem que diz “Eu”, fala de mar, praia, água, areia; tudo se move, nada fica parado: “todos os dias eu volto à praia para tentar te encontrar. Caminho sob o sol ou a chuva. Ando pelas areias que se movem pelo vento, pela areia compactada pela água do mar.” (p.99) Interessante perceber que, agora, a história é contada por quem espera e não por quem parte. Fé, a protagonista, como Penélope, espera por seu homem perdido no mar. Vale acentuar a relação direta com outra parte do título do livro, o nome Doramar, que compreende dor e mar, marcando a trajetória de sofrimento da personagem que perdeu seu homem no mar e o espera como Penélope esperou Ulisses.

O mar, caminho e destino, acaba por ser a própria identidade da personagem: “[…] eu mesma havia me tornado o oceano que nos separa” (p.109) Cristina Oliveira relata em sua análise como, no conto, a relação entre o EU e o TU está associada a um jogo paradoxal envolvendo os verbos “perder” e “encontrar”, o que reitera a tensão em construções como: costumava então me perder… para que você não demorasse a me encontrar (p. 76). É nessa contraposição entre o perder e o encontrar o outro, o objeto amado, que a personagem constrói e reconstrói seu eu. Dessa forma, a imagem de caminho desdobra-se em um movimento pendular entre mar e terra; ora a protagonista se identifica com o mar, buscando a morte; ora ela retorna para a terra, para criar seu rebento e, por fim, volta ao mar para lhe apresentar seu filho. Como demonstrado pelo uso ambíguo do pronome “seu”, o mar, personificado, que antes era lugar de morte, torna-se origem da vida.

A ideia de caminho pelo mar alarga-se ainda mais quando a narradora passa a dizer nós, reescrevendo a história dos negros no país, ao contar a travessia do casal: “Atravessamos oceanos há séculos, através das águas, partindo do continente do lado de lá. Partimos de muitas terras. Partimos de muitos lugares, de muitas cores, de diferentes vozes, de diferentes falares, por diferentes ondas, de terra e de mar, de florestas e de savanas, de planícies e de montanhas. Partimos muitas vezes acompanhados de multidões, partimos em pequenos grupos, mas quase sempre partimos conosco. Partimos para fecundar a América. Partimos para perecer na América. Nascimento e morte: América” (p.102)

Nesse trecho, remetendo à vinda dos escravizados, tanto os propriamente ditos como aqueles que sempre os representam e repetem, observa-se uma interseção com o conto “Alma”, em que narradora é parte da encenação da sua vida entre as de muitos que chegaram ou sempre chegam. Por isso mesmo, é interessante adiantar que, assim como o filho de Fé relaciona-se com Moacyr, o filho de Iracema, no romance de mesmo nome de José de Alencar, que tem o Brasil como berço, Alma, depois de ter seus filhos apropriados pelos donos da terra, tem muitos outros filhos, de variados pais e povoa a terra que a escravizara.

Mais uma vez, ressalte-se, uma obra conversa com outras, ora aproximando-se, ora afastando-se das histórias contadas. A intertextualidade não se dá então simplesmente entre textos, mas entre cenas enunciativas. Quem conta agora a história dessas travessias?

Antes de passar para outro conto, vale a pena, então, a observação mais detalhada de uma figura que se repete desde o título, a feminina. No título, Doramar é uma personagem feminina, e é dirigida a uma mulher a primeira dedicatória do livro: “Às mulheres, maternas, ancestrais que se fizeram movimento em meu caminho.” (p.7)

Pergunta-se: Quem está falando aí? Trata-se de um espaço do autor, é ele Itamar que se faz representar dizendo eu, integrante de um grupo familiar. É então que o caminho do autor, desdobrado em sujeito enunciativo, se cruza com os caminhos das personagens.

Fé, ao narrar sua história, inscreve-se como mulher que pare um filho do mar, entre a África e o Brasil. Filho talvez de um estupro, imagem forte que pode simbolizar a terra estuprada pelo colonizador. Alma, em seu movimento de resistência, repovoa a terra com filhos de muitos homens. Observe-se que a terra, antes seca e infértil, vai florescendo, à medida que Alma conhece homens e pare seus filhos. Referindo-se a um dos homens com quem se deitou, Alma diz: “ele levantou minhas roupas cansadas, ele me deu coisas que eu desejava e partiu, com seu trabalho e nunca mais voltou, eu que já estava ficando velha, que já tinha cabelos brancos que tirava com minhas mãos, percebi que meu ventre crescia, avançada em anos, esperava um filho como uma mãe velha, esperava um filho como sonhei deitada nesta terra em que agora piso e que semeio, esse filho nenhum senhor iria tirar de meus braços, esse filho seria amamentado como as crias dos selvagens […]” (p.51 – 52). A referência à maternidade na velhice ecoa cenas bíblicas, sobretudo a de Isabel, mãe de João Batista.

Interessante constatar que, enquanto Alma e Fé contam suas histórias de vida e, miticamente, contam a história da criação do mundo, a história do Brasil vai sendo reescrita. Essas narradoras são estratégias criadas pelo autor para fazer isso, rescrever a história contada por aqueles que “descobriram” e colonizaram a terra. A cada recontagem, deslocam-se alguns elementos, refazendo-se percursos e mapas.

Em vista disso, vale a pena juntar a essas reflexões a leitura do conto “A floresta do adeus”, prescrutando a função de um outro elemento presente nos contos, a cerca. Voltando antes ao conto Alma, registre-se uma das passagens em que essa figuração se faz presente. A narradora expõe suas descobertas, mas constata: “[…] por onde eu ando há cercas, há terra, mas toda terra parece estar cercada, toda terra agora tem homens armados, guardando cada um seu pedaço, muitos pedaços grandes que a vista não alcança […] (p.40)

Essa imagem da cerca ligada à posse é facilmente percebida no conto “A floresta do adeus”, na linha amarela, nas duas cercas de arame farpado, na presença dos soldados, dos tiros e das placas de interdição. No conto, que tem vários narradores, vai-se conhecendo a imagem de uma família em seu antes e depois. A interdição do amor entre Luís, o narrador 1, e Rosa, sua prima, é a tradução do incesto, regra básica da formação da cultura, segundo Freud. A floresta, deserta e estéril, como se nota na presença apenas de eucaliptos, simboliza a dificuldade da criação da vida: “Eu me posto na estrada onde o limite foi estabelecido e aguardo […]” (p.12). De um lado, a vida, os pães frescos feitos pelas tias, de outro, as cercas, os limites, entre eles a floresta semiestéril. A presença dos pães feitos em casa e trazidos para o primo remete à vida não só como o alimento bíblico, mas também com a figuração do útero. Não sem razão, ao tomar a narrativa, Rosa, diz “A rosa túmida de meu corpo”. (p. 10)

Importa investigar, na organização textual, outros signos que se ligam aos até aqui mencionados, marcando a tensão entre o amor e a interdição, a vida e a morte. Observe-se, por exemplo, o papel dos cinco sentidos aí representados, como na cena em que se descreve o passado e o  presente na casa-grande: “Quero olhar Luís, sentir sua presença, sua afeição pelo campo, pela terra, pelas cores que ornam o mundo, sua sutileza quase animal, seu rosto queimado de lutas, Luís que nasceu na mesma casa velha contornada de varandas, de quintais onde ciscam galinhas e se colhem ovos, onde se erguem os pomares de nossa infância, os beijos de araçá, a ternura hostil da cana, a sombra fresca da mangueira, o sono lento de nossa aurora, assim chegamos ao mundo, quase juntos, no calor da lenha que queima nos fornos de assar pães, na irmandade de nossas mães, nas casas das mulheres de lida, âncoras de nossa infância […]” (p.15-16).  A cena continua com referência às cores, às texturas, aos cheiros, aos ruídos, aos gostos. É a mistura do homem com a terra e sua força natural.

Não por acaso, ao lado dos limites, trata-se das transgressões, das burlas, como se vê na fala do terceiro narrador, que agora fala “nós”, narrando a história de Luís e Rosa, seus interditos e transgressões: “[…] a cerca, alta em outros tempos, diminui, entorta-se, rompe-se e se quebra; se no início era reparada, agora não é mais, as passagens se multiplicam […]” (p. 20).

A fala de Isaura, uma das 3 irmãs solteiras, é escrita pelo autor como uma litania, uma ladainha, como se pode ver pelas repetições e paralelismos: “Somos as mulheres que […]”. Essas frases configuram o papel das mulheres daquela época, em sua obrigação de abrir mão da própria vida para cuidar das outras mulheres e seus filhos e suas filhas. A figura dessa narradora opõe-se à de Rosa, promessa de vida, condenada pelas tias e tio, com exceção daquela que fala, por seu envolvimento amoroso com Luís.

Como se vê, estudam-se os personagens, como bem mostra Jonatas Guimarães em seu texto, levando-se em conta a noção de figuração de Carlos Reis, quando considera que, assim como a pessoa, o personagem não é uma entidade fixa, pronta e acabada, mas se encontra em um processo dinâmico de reconstrução contínua. Nesse processo de construção e reconstrução, instala-se o jogo de vozes, traduzido não apenas na mudança de turno da fala das personagens, mas em um confronto de valores, em uma perspectiva dialógica e polifônica como postulada por Bakhtin. Conforme ressalta Jonatas Guimarães, é a partir do confronto das perspectivas de autor e de personagem que Bakhtin propôs seu pensamento ético voltado para as relações com a alteridade; o eu que se constitui a partir do contato com o outro. A ficção narrativa é o espaço onde é possível juntar valores do autor e dos personagens e levá-los a chocarem-se entre si. Assim, personagens confrontam-se com outros do passado, do presente e do futuro em um processo contínuo de negociação de sentidos, mesmo porque a palavra é sempre habitada pelo outro.

Na leitura transversal de três contos do livro Doramar ou a odisseia: histórias, sentidos foram construídos por meio de elementos que organizam a narrativa: aí acompanhamos os personagens desenhados pelo autor em sua relação com os outros e com seus espaços e tempos. A escolha dos elementos poderia ter sido outra, mas aqui privilegiamos as imagens de caminho e de cerca, além da figura feminina em diferentes momentos: o da travessia da África ao Brasil, o da fuga dos escravizados rumo à liberdade e o da busca de outras liberdades e de outros mandos. Observamos ainda quem fala em cada conto, prestando atenção em como as diversas falas se tensionam, o que nos permitiu formar o perfil do próprio autor, que fala por meio das estratégias que utilizou ao escrever cada conto. Formou-se, então, uma cena enunciativa maior, em que nós nos incluímos como leitores e dialogamos com o autor. É então que podemos dialogar ainda com outros de seus livros, como os da trilogia da terra: Torto arado (2019), Salvar o fogo (2024) e Coração sem medo (2025), mas isso é conversa para outra hora. Por enquanto, basta perceber que as cenas enunciativas se formam em interseção como as parábolas, que vão de um ponto a outro, em trajetórias infindas.

 

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